Thursday, April 12, 2012

Dias sem fim

São dias conclusivos,
terminados,
interrompidos,
que se findam
a toda hora,
a cada passo,
em cada dia.
São dias finados,
perdidos,
passados,
dias de ontem,
de nada,
que se vão.
São dias que se acabam
martirizados no tempo
que insistimos em 
não deixar passar,
imaculados no espaço
que insistimos em
não enxergar.
É mais um dia sem fim
que se acaba em mim,
olhando em seus olhos
e vendo o brilho 
de mais um dia
se apagar.

Sunday, June 26, 2011

Cego Amor

Meu amor não é mais cego
e enxerga você como é
com falhas, limites, cheiros, 
angústias, tristezas, lamentos,
esquisitices bizarras.
Meu amor enxerga o que está a frente,
distante, ao longe, ao largo, adiante.
Meu amor maduro 
(de tanto tempo que amo
de tanto amor que sinto)
te ama cada vez mais
porque não é mais cego
e ama você com tudo que é
porque não seria amor,
não seria você,
não seriamos nós,
não seria tão bom.

Friday, April 01, 2011

Alegoria

o que eu faço
aos pedaços
e passos
é só
o que eu faço e
se fosse poesia
seria incompleta
como é a dor
e a cidade vazia.
se fosse poesia
seria inconstante,
de forma abjeta
(seria
de mim
um pedaço
extraído),
alegoria tardia
de um carnaval
esquecido...
se fosse poesia
talvez eu fosse mais feliz.

Falha interrompida.

um dia
qualquer destes que passam por aí
quis ser um debochado leminsky
e dos lugares comuns e chavões
troquei de lugar raios e
sensações;
depois tentei baudelaire,
simbólico, mefítico, sexista,
jurei mentiras em laivos de
saudades;
visitei kerouac
narrativo e imberbe,
perdi um irmão e saí
vagando por ruas estreitas,
antônimas,
procurei os amigos ginsberg
e burroughs em vão,
sentido sem sentido,
melífluo desprazer,
rio vermelho que escorria
dos meus olhos em prantos
-lisérgico-juvenis;
tateei o obscuro medo do conhecido
e tentei mayakovsky
revolucionando a mesmice
em opções básicas,
simples, práticas,
poemas mecânicos.
esqueci de mim
em meio a tudo que tentei,
busquei,
falhei...

Tuesday, March 08, 2011

Sonhos

ontem tive medo de dormir...

hoje me apego a sonhos incompletos
para impedir a chegada da manhã,
meu pesadelo rotineiro.

Manhã Qualquer

Haverá um momento
em que seremos passado,
obscuro em seu meio,
pequeno pedaço de tempo,
lembrança tardia
em uma manhã qualquer.

Haverá um momento,
distante no tempo,
em que seremos apenas
notícias vazias,
inócuas, perfídias,
em uma manhã qualquer.

Haverá um momento
que não teremos manhãs,
lembranças, notícias, espaços,
...apenas saudades.

Friday, January 14, 2011

Nada

tentei escrever
um poema
sobre nada
e foram tantas
as palavras
verbos
rimas
quadras
anagramas
metonimias
e saudades
(porque a saudade é um vazio)
que deixei tudo em branco
e fui dormir mais um pouco

Ocular

ver
tão simples
e tão pouco

(enxergar)

de olhos fechados
a escuridão
fica tão mais bonita.

Pedaço Qualquer

cansei dos amigos de outrora,
dos velhos amigos de sempre,
cansei de todos os amigos que tenho
que nunca me ligam, nunca me escrevem
que me sabem cativo da amizade existente
e dela não cuidam.

cansei...

quero novos amigos
que se enterneçam com minhas lágrimas
que acreditem na minha poesia
que se assustem com minha agressividade gratuíta,
palavrões desnecessários e minha
violência inútil e fora de sentido.

preciso de novos amigos
que se surpreendam com meus arroubos
que não entendam minha melancolia

que não saibam de mim
um pedaço de mim qualquer

para depois de algum tempo
me cansar deles também
 
pois sempre acabam espelhando
um pedaço de mim qualquer.

Friday, November 12, 2010

Latitude e morte

quando me refiro
a tantas coisas
inúteis
em um fluxo contínuo
de teorias obscuras
e desnecessárias
é que perdi meu caminho
é que perdi meu sentido
é que não sei mais
a distância
do queixo à ponta do meu nariz

(que sangra de forma tênue e serena
depois do soco que a vida me deu e
fez morrer em mim tanta coisa depois
da conversa de ontem que já não sei
mais se sou eu).

Necessário

preciso definir de 
forma imperativa
o senso inexpressivo
da angústia solitária.
preciso reparar
alguns danos
sócio-atemporais
e sanar pendências
amorais.
preciso incitar
minha poesia
ao escândalo
e regurgitar em versos
o obscuro e o amargo
da vida.
preciso recomeçar do zero
e me enganar de novo
e começar mais uma vez
e de novo não saber
porque insisto nisso.
preciso de um carro
novo
uma cara
nova
um motivo
novo
preciso do sol poente
ardendo em meus olhos
lacrimejantes
e
ao cair da tarde
preciso
recomeçar de novo
e me enganar de novo
e me amar também
porque preciso
porque persigo
porque é necessário.

Monday, September 06, 2010

Pedaços

espaços exíguos
pequenos
compactos
estanques - febris -
espaços ambíguos
de mim,
apartados de mim
-espaços sem fim.

(espasmos de vida
rascunhos de traços
construo a metrópole
dos meus sonhos
em pequenos pedaços
esparsos)
- pequenos pedaços -

(construo a mentira dos meus versos
na sinceridade da minha dor
- e só não finjo o amor que te sinto -
mas minto o tempo todo)

e minto aos pedaços
pequenos
espaços
vazios
de mim
que eu não sei
e nem quero mesmo
saber
porque minto tanto
e sinto tanto
e sinto muito
mais um dia
aos pedaços.

sinto o verso fracassado,
a rima ausente, a metáfora
insandecida,
o anagrama desfeito,
a poesia sem jeito,
feita aos poucos

de mim
de mais um dia
de nada que seja importante,
estilhaços de uma vida toda
lançados ao vento-pedaços.

Wednesday, August 18, 2010

Foda-se toda a poesia

foda-se a retórica empolada
-angustiante-
metafórica e hermética
da poesia.

quero palavras claras e simples
frases descomplexas,
-sem quaisquer rótulos inertes,
regras pré-fabricadas,
sem rumos nem sina.

frases singelas
como em uma canção de amor

e se o verso for imprescindível
que se elimine a rima óbvia
do amor que dói pois há mais
no amor que sangra
que apenas a dor de um poema,

há mais entre nós que o reflexo
do espelho da retina,

há mais nas palavras
que tento encontrar
e que me perco

que me faz optar
escolher revelar
regurgitar a poesia 
engolida em tantos anos 
passados a ferro
fogo fio e solidão

que só me resta gritar
que se foda toda poesia
mecânica
de tempos sincopados
de métricas sistemáticas

eu quero mais o que é seu
é meu
e nosso,
quero mais o que é fundo
distante
inseguro
quero mais um cigarro
um beijo
e que o amor sobreviva

quero mais o que for menos
porque mais é demais
e menos é a paz que eu preciso
e basta encostar no seu peito
e deixar a vida fluir
o tempo passar
e o verso sumir da poesia.

Wednesday, July 14, 2010

Para quem sente essa dor

dedicado a Guiomar


seus olhos estão pequenos
sua voz está pequena
seu corpo parece diminuir também
em você tudo me dá a impressão
de fim
e quero mesmo que acabe
essa dor que você sente
esse medo do porvir
essa angústia que você lastima
esse tanto de vida
esse tanto de vida que ainda há.

e que seus olhos se iluminem
da mais terna luz que se possa existir
que sua voz irrompa em trovões
guturais e ferozes
e que seus braços se fortaleçam
e arremessem seu corpo no espaço
e que sua vida se torne de novo
esse tanto de vida
esse tanto de vida que ainda há.

e que possamos lembrar disso tudo
com a serenidade de quem sabe
que esse tanto de vida ainda há.

Um som

como se fora possível
alterar o ritmo seguro
da rotina
e a mesmice inconsistente
das palavras que emprego
resolvi ousar e fiquei em silêncio...

no começo foram instantes
que viraram horas
que transbordaram em dias...

e assim me mantive

mudo...calado...
e pensei no silêncio
e calei também o pensamento
e olhei a janela
e silenciei a paisagem lá fora

e quando tudo parecia o que é
sem som de qualquer outra coisa
derramei uma lágrima
pequena
brilhante

que em queda me pareceu
um grande pedaço de mim

e ao encontrar o chão
preencheu o vazio do silêncio
como um grito
em meio ao vazio de tudo,
um som
em meio ao vazio de mim.

Saturday, April 24, 2010

Vida

meus dentes se cravam
em sua carne alva
que se inunda de sangue
que jorra incessante
que pulsa feroz
que é mais que poesia
é vida, é vida.

Vazio

obstáculo a frente
a fundo
a fenda
em meio a tudo
-interrompendo
a poesia
no fundo
um buraco
de qualquer tamanho.

Coisa

coisa
pouca
tola (a toa).

a vida navega
tormentas
escândalos
despedidas

coisa
tanta
tola (a toa).

Estar aqui

e se eu não estiver aqui
amanhã,
depois,
em algum momento
eu não estiver?
o que será das coisas,
da solidão dos sentidos,
dos edifícios
inacabados,
das palavras silenciadas,
dos tantos anagramas
desconstruídos?
o que será dos sons,
do medo (da morte),
da vontade de voar,
do olhar no vazio?
o que será da alegria
de estar aqui (com você) todo dia?
o que será de mim
quando eu não estiver aqui?
serei lembrança ou pergunta sem resposta?
esperança de volta ou um largo gesto de adeus?
saudades ou um poema esquecido
em meio a rotina incessante da vida?

Friday, April 02, 2010

Pieces of everything

o que fica daquilo que fomos?
quanto somos daquilo que fica?
há verdade nos resquicios de um sonho?
há mentiras nos recortes da vida?
o que sobra do quanto sonhamos?
o que sangra do quanto sabemos?

há verdades nos pedaços do mesmo
sonho que recorta a poesia
que ainda assim não entendemos.